terça-feira, 22 de julho de 2008

As Chaves da Ruína

Livro 1 - Os Pecados de Nossos Pais
Prólogo
01/42

225 anos atrás.

Há quem diga que os astros podem descrever o destino de todos. Bastaria ler os movimentos dos planetas e os desenhos das estrelas. Para alguns ainda é preciso, pelo menos, começar a olhar para o céu.

Já era quase manhã quando o velho arquiteto contemplava a maravilha de sua criação. Na nave do grande templo, no centro da capital, onde passou a noite, ele aguardava ansiosamente os primeiros raios de Luritan brilharem através dos vitrais. Mas isso não era tudo, pois ele conhecia o movimento dos astros e os desenhos das estrelas. Um conhecimento proibido, permitido somente aos sacerdotes. Exatamente naquela manhã, Eldinaz, a estrela mais brilhante da noite, continuaria acesa, formando um alinhamento perfeito com Luritan. E algo mágico aconteceria.

A noite foi deixando seus rastros no céu, dando boas vindas a Luritan, o astro rei, que começava a manchar a orbe celeste com sua luz. O tom de vermelho nas nuvens surgia quando a luz de Luritan atravessou o vitral desenhado pelo arquiteto. Na parede oposta do grande templo via-se um grande desenho ser projetado pela luz, ilustrando as glórias de Tedahk, o deus dos vitoriosos. Mas quando a luz de Eldinaz alinhou-se com a obra do arquiteto e mais o nascer do dia, apenas os vidros em tons de vermelho permaneceram projetados, os demais tornaram-se opacos. Surgiu então um mapa de todo o continente Estelar, e haviam quatro pontos, indicando quatro cidades em quatro Nações.

"Eis a chave de meu tesouro." Sussurrou o arquiteto, quando o desenho se desfazia e bem na hora em que as portas do templo foram violentamente abertas por quatro homens do Martelo de Guerra, o exército particular das igrejas. Junto com eles, um homem obeso vestindo mantos negros adornados com símbolos bordados em ouro e com uma máscara em forma de cone, que lhe cobria toda a cabeça.

"É inútil reagir traidor herege." Gritou o inquisidor.

O arquiteto, segurando uma adaga, a levou até o pescoço. "Minha morte, meu silêncio."

"Podemos obrigar até os mortos a falarem, você sabe disso." Respondeu o inquisidor num tom sarcástico, gabando-se de seus conhecimentos necromânticos. Os soldados da fé aproximavam-se do artista das construções e não tinham intensão de prendê-lo.

"Eu já encaminhei minha alma para o reino dos sonhos, maldito. Morro aqui em silêncio, mas minha voz vai ecoar pelos séculos até suas mentiras ruírem." Num gesto rápido, cortou sua própria garganta. Seu corpo caiu no chão, ecoando pela nave do templo, uma grande poça de sangue formou-se ao redor.

O sacerdote do santo ofício, que nunca olhou para o céu, jamais soube onde o arquiteto escondeu as chaves para a ruína de sua fé. Eldinaz, até então, nunca mais brilhou daquele jeito.

[continua]