Conto escrito pelo Denny, que ilustra bem a cultura do povo de Asterland, e a forma como "aventureiros" são vistos em Akyremma! Valeu Denny!
Catarina sempre fora diferente das outras garotas de sua idade. Preferia cavalgar a bordar, não pensava em se casar ou seguir vida religiosa. Seu sonho era viajar, conquistar o mundo e ser livre.
Quando eu chegava à cidade de Gossyp, ela sentava por perto para ouvir sobre minhas andanças pelo reino. Seus olhos brilhavam a cada estória e ficava fascinada por minhas aventuras.
Ela nunca havia cruzado a fronteira da cidade, ajudava os pai na colheita do algodão e a mãe no tear. Nas horas de folga passava o tempo na ferraria do seu tio. Adorava vê-lo fundir os metais e transformá-los em belas espadas. Gostava mais era de tê-la em punho e golpear fulminante seu inimigo imaginário. Não tinha técnica alguma, mas o peso da arma não parecia incomodá-la.
Certo dia, quando narrava uma de minhas estórias, fui surpreendido por uma série de questionamentos. Ela queria saber por que nos meus contos não havia mulheres guerreiras, capitãs, ferreiras... Sempre as mulheres eram ladras, bruxas ou tinham fim trágico. De fato, não conheço nenhuma que tenha se destacado nas estórias sem ter levado minhas moedas ou estivessem dançando nos palcos das tavernas. Disse-lhe que nas grandes cidades como Mayserc, as mulheres desempenhavam outras atividades, além de servir a Tedahk, tecer e cuidar da casa. Não sabia eu, que tempos depois ela tomaria estrada em busca de um sonho.
Na sua idade, 16 anos, as mulheres já estavam prontas para o casamento. Catarina nem conhecia seu pretendente, mas quando soube que seu casamento já tinha data marcada e que o dote já fora definido, decidiu partir.
Antes de o sol nascer, ela já estava na estrada. Sem outros pertences, somente uma espada. Leve, polida, bem afiada e roubada! Não havia outro jeito, seu tio nunca lhe daria uma espada. Fugiu a pé rumo a Mayserc, a cidade dos contos, onde teria sua liberdade conquistada.
O caminho era mais longo que o esperado. Estava cansada e com fome, mas ali não passava uma viva alma. Continuou a trajetória até ser assaltada, foi assim que levaram sua espada e se não bastasse fora espancada. Mas nem tudo poderia dar errado. Um grupo de aventureiros por ali passava e viram o seu estado, prestaram socorro e lhe alimentaram.
Sua nova família lhe ensinou a empunhar a espada e com o pequeno grupo conheceu diversos povoados, aprendeu a mover-se em silencio, a roubar e ferir. Para comer tinha que seduzir os feirantes ou ameaçá-los. Não era a mulher que queria se tornar, mas o caminho se tornava cada vez maior para voltar.
Numa noite reuniram-se todos em volta da fogueira no acampamento montado ao luar, contando estórias, moedas de ouro e itens conquistados. Foi quando encontrou embrulhada em couro a espada que seu tio forjou. Sim, era aquela que ela roubou! Sua única lembrança da terra que deixou.
Não havia outra explicação. O mesmo grupo que lhe acolheu, talvez por pena, fora o mesmo que lhe bateu. Não conseguia lembrar-se da face dos assaltantes, mas também era cinco o número de atacantes. Covardia!
Traçou um plano mirabolante e quando todos foram dormir, seduziu o líder errante. Com sua espada em silencio o matou fulminante! Furtivamente como lhe foi ensinado, levou consigo o ouro roubado e a galope fugiu em disparo.
Anos depois Catarina me contou esta estória numa taverna em Mayserc. Vestia armadura, tinha adagas, espada. Queria que eu incluísse seu nome nas estórias, pois tinha encontrado a liberdade e traçado seu próprio destino.
Todavia a sua maior aventura, eu ouvi espantado no meio da rua. Mais um assassinato acontecera bem em frente à feira. Amarrado pelo pé, pendurado numa pilastra em frente a um comércio, jazia um corpo, que segundo o burburinho, fora crime de vingança. Uma grande guilda de ladrões, assassinos e malfeitores mataram Catarina de Gossyp com a sua própria espada! E foi assim que ela encontrou seu trágico fim!
Preste a atenção crianças, esta estória verdadeira serve de lição!
Meninos, a mulher guerreira e aventureira é traiçoeira, não caiam em tentação!
Meninas, não adianta rebelião, pois nossos pais tem sempre a razão, sejam obedientes e sempre viverão!
Ozo – O bardo
Estórias infantis contadas na praça.